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domingo, 16 de março de 2008


Estava com saudades daquela época em que eu era o porquê em pessoa. Queria saber a resposta para tudo, mesmo que eu soubesse o porquê das coisas serem assim, eu queria sempre que alguém me explicasse, uma vez, e outra.
Abri o meu livro preferido em pequena "Histórias da Condessa de Ségur".
E que recordações me vieram à cabeça naquele momento. Aquele cheiro a velho, bocados de bolacha Maria nas divisões das páginas, e "Inês Cosme" escrito em praticamente todas elas, com uma letra meio esquesita.. aquela letra que as criancinhas da minha idade naquela altura costumavam ter.
Fiquei realmente com saudades, e que saudades.
Era tudo tão fácil.
Comecei a ler as histórias uma a uma e esbocei um sorriso quando reparei que continuava a saber aquelas frases todas de cor.
Eu não era como todos os outros. Não gostava de ler livros com bonequinhos e botõezinhos para carregar. Livros que se abriam as páginas e soltava-se uma música muito bonitinha. Aqueles livros que eram a preto e branco e ficavam à espera de sermos nós a dar-lhe alguma cor. E os outros que tinham letras imensamente grandes, deviam pensar que por ter as letras grandes as crianças iriam aprender a ler mais rápido. Nada disso. Eu preferia livros com histórias verdadeiras. Não sabia ler como sei hoje em dia, lia uma palavra uma a uma, e no final de cada frase dizia as palavras todas seguidas que tinha já dito, mas num tom mais rápido de maneira a parecer que estava a ler aquela frase pela primeira vez. E ficava a perceber a história.
Demorava alguns dias até, talvez semanas a acabar um livro com 50 histórias. Mas aquele era especial. São histórias de uma menina que só faz disparates, e de alguma maneira, eu identificava-me com ela. Vá-se lá saber porquê.
Gostava de comparar as travessuras que fazia com as daquela menina que, embora rica, era igual a qualquer uma de nós, as meninas normais.
Cheguei ao meio do livro e parei. Fiquei um bocado a olhar para aquilo que tinha encontrado. Um cabelo. Sim, podem gozar. Mas eu não abria aquele livro há anos. Estava dentro dum compartimento que tenho escondido na minha cama. Lá bem para o fundo. E desde que mudei de casa há 7 anos atrás, nunca mais tinha tocado nele. E ali estava ele. Um cabelo, no meio de tantas páginas de um livro tão velho. Era pequeno e castanho, tal e qual o meu cabelo de alguns anos atrás. Mas agora ele está grande, embora continue castanho. Mas tenho a certeza que ele permaneceu ali durante muito tempo. E só aquela experiência que vivi hoje me fez relembrar tudo o que eu gostava de fazer em pequena.
Que saudade..

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