segunda-feira, 19 de maio de 2008
19/05/08
- Cantiga de amor, Rádio Macau
Hoje acordei com uma lágrima ao canto do olho. Limpo-a rapidamente e esta música vem-me à cabeça.
Nasce um dia mais escuro que o resto mundo.
Em vez de acordar com os raios de sol a entrarem no quarto, acordo com uma nuvem escura a bater-me no vidro da janela.
Lavo os dentes e o dia começa, mais escuro que o resto do mundo.
A camisa de noite, os chinelos gastos e o sono enrolado aos bocejos: nada de novo.
Saio com as olheiras por disfarçar, como em todos os dias claros, e com o cabelo a esvoaçar, mal penteado.
A primeira cara familiar que encontro vê-me passar e diz que estou triste. Ainda tento disfarçar com um sorriso de improviso, mas é difícil de enganar quem já me conhece. Um beijinho na bochecha da mãe, dois dedos de conversa e está o assunto resolvido...
Esfrego os olhos o dia todo e falo sozinha.
A nuvem escura que me acordou à bruta molha-me satisfeita, enquanto eu piso as folhas mortas e ensopadas, perdidas pela calçada.
Rabisco umas frases num caderno da escola e risco-as logo de seguida, quase me sabe bem.
Sinto a falta. Do sorriso enorme e das carícias.
Penso no meu pássaro cinzento e amarelo, o mais alegre lá em casa. Esqueci-me da janela aberta.
Deve estar com as asas e o bico ensopados... Pobrezinho.
Fico à espera do sol, em cima de uma cadeira gasta, para que o arco-íris apareça e faça companhia àquele que trago preso ao coração.
Não aparece. E a nuvem escura ri-se de mim e molha-me mais um bocadinho.
Imagino um Príncipe de caligrafia torta transformado em sapo.
Sinto-o a rasgar-me os sonhos só mais uma vez, ao mesmo tempo que aponta para mim e se ri. Não tem uma coroa, mas tem uma espada, tão pequenina quanto ele.
Peço-lhe que me perdoe, de coração apertado. Que me perdoe ter sido tão fraca. Tê-lo feito sofrer e agora ser a minha vez.
Perdoas-me?Etiquetas: Músicas
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