..
sexta-feira, 15 de agosto de 2008


Ela não gostava que reparassem na sua mágoa. Quando lhe perguntavam se estava tudo bem, limitava-se a acenar com a cabeça.
Os seus olhos eram castanhos. Estavam mais claros que habitualmente. Tinham pequenos pontinhos brancos que não eram do reflexo, não podiam ser porque estava de noite. Só que ele não viu nada disso.
Foram tantos os minutos de soluços e pontadas no coração, de horas a chorar, de medo, dias de tristeza e agonia, largos meses de desesperança sem o desespero… Foi tanto tempo sem ele que ela já não sabia sentir-se completa.
Lá fora as paisagens mudaram e ela nunca mais passou naquele sítio tão deles.
Passaram-se estações desde que os seus olhos brilharam debaixo do tecto da casa dele. Na sua cama.
Na verdade, os olhos dela não voltaram a brilhar, afogou-se em água que parecia chumbo e viu espelhos nos olhos dele…
Os espelhos mentem.
Controlava os espasmos, sentia-o entre os dedos, sentia-o entre as pernas.
Sentia-o sem ser sentida. Deu-lhe mais. Pôs as suas coisas no vazio dele. Inventou linguagens que não existiam. Chegou a fazer exorcismo no seu peito.
Ouvia coisas absurdas e ele só lhe respondia “tudo bem”.
Pensou que era uma espécie de Coca-Cola, mas percebeu que não passava duma Pepsi. Ao fim disto tudo, não passa de uma lata de cola da marca rasca do supermercado ao fundo da rua.
Ele prometeu-lhe que tudo se ia resolver. Mas os dias foram passando, os meses foram-se e não voltaram.
Quando ela reparou que eram anos de vácuo, nunca mais voltou a pensar. Ela nunca mais se prometeu a ele. Era só preciso massajar o coração e ele desaparecia imediatamente.
Como se tivesse medo. A mãe costumava-lhe dizer que era isso que ele tinha. Medo.
Não havia volume na sua voz. Nem manuais que lhe definissem em letras.
Ela queria alguma coisa. Cada vez mais. A sua memória não se esgotava e ela não tinha pulmões para tanto.
As lágrimas desapareciam-lhe, ou simplesmente esvaziavam-se pelos seus poros.
Os seus dentes notavam-se. Os seus olhos moviam-se. As suas mãos rodavam freneticamente.
Pensava que estava a enlouquecer quando o ouviu chamar por ela.
Só que ele não viu nada disso. Se ela lhe disser algum dia que ele é a única coisa que ela precisa, é como se um gato arranhasse com as suas afiadas unhas aquele sofá que ele tanto adorava só porque era vermelho.
Oh… esquece.

13:52