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segunda-feira, 4 de agosto de 2008


O quarto não é arejado há bastante tempo, já tem um cheiro a mofo e o ar está pesado de tantos cigarros fumados até ao fim, acesos uns atrás dos outros. Cigarros espetados nos seus lábios já amarelados e encolhidos.
Nas paredes as molduras desmaiam, as fotografias lembram sorrisos antigos, felizes, sinceros, coloridos.Ela sente-se sozinha. A divisão já só tem uma cama e uma mesa-de-cabeceira. Vários livros para satisfazer o único vício saudável que não perdeu – o da leitura.
Já passaram dezanove anos mas nem ela sabe exactamente o momento em que entrou nesta estrada sem volta a dar, neste buraco sem fundo. A vida ensinou-lhe tão bem a esquecer as desilusões do dia-a-dia que ela já nada aprende com os erros que comete e que, sem dúvida, já não têm conta.
Uma personalidade frágil, uma mente sonhadora, uma vontade de agir. Ela sonhava de olhos abertos, um casamento para uma vida que durou um ano … os homens são muitos e apaixonar-se é fácil, basta uma pessoa, basta um bolso com notas a fugirem, basta uns lábios bem pintados e pronto.
Agora, no quarto, sentada na cama com as pernas à chinês, abana-se para a frente e para trás com cara de dor. As duas sobrancelhas apontam em direcção ao nariz, os olhos entreabertos, os lábios fechados com força a apertar o cigarro que, de vez em quando, tira da boca com dois dedos para poder inspirar e dizer “preciso de consumir, preciso de consumir”.
São duas horas da manhã mas não existe o momento certo ou errado para se querer, é como o desejo de uma grávida que tem de ser realizado. Ela ainda se pôs em frente ao espelho a tentar disfarçar as olheiras com um pouco de base e blush, apanhou o cabelo, vestiu um casaco comprido e saiu.
Dirigiu-se ao sítio que há tantos anos conhece.
Paga com um macinho de notas que traz no bolso e volta para o quarto, mais aliviada.
O ordenado mínimo que recebe do trabalho como cozinheira num restaurante não chega. Usa o abono da filha de onze anos. Durante todos estes anos vendeu o que havia. Vendeu os electrodomésticos, as mesas, as cadeiras, os quadros. Roubou. Falsificou. Quando está “pedrada”, com o efeito da heroína e da cocaína, não existe ninguém para além dela mesma, dos seus clichés, desejos e vontades.
- Mãe, dás-me dinheiro para almoçar na escola? – Pediu a Maria, a sua filha de onze anos, a medo numa das poucas vezes que lhe dirigiu a palavra nos últimos tempos.
- Não posso! Preciso dele para consumir! – Respondeu-lhe fria e seca.
A revolta dentro da pequena criança aumenta, os sentimentos misturam-se. Sente-se raivosa, afinal trata-se da mãe dela. Observa com os seus grandes olhos cor de mel o “lixo” em que se tornou aquela pessoa que a protegia e acarinhava todos os dias, a toda a hora, a todo o minuto.
Há um egoísmo próprio deste vício, desta droga.
Dinheiro, muito dinheiro gasto em tratamentos que de pouco ou nada valeram. Dinheiro que a filha tanto precisava e esta pobre criatura egoísta não ofereceu. Palavras, muitas palavras gastas em conversas que mais pareceram barulhos, sem nexo.
A Maria tem uns lindos caracóis como os da mãe, é alta e magrinha. Tem um sorriso tímido talvez por ter crescido mais que o carinho da sua mãe e por a sua força interior ser posta à prova a todo o instante. Presencia os momentos mais anormais e problemáticos de uma mulher que ficou grávida cedo e se tornou toxicodependente.
Encontra-se uma ou outra vez com aspecto de morta: caída, de olhos fechados, com a droga e os papéis espalhados em cima de uma mesa. Viu fugir de casa vários objectos de valor que nunca retornaram.
As fotografias nas paredes já não são olhadas, nem limpas. Ela não se apercebeu que afastou todos os que ama. Ela limita-se a desperdiçar tardes deitada na cama a comer chocolates e a ler livros com histórias que não são a dela e lhe alimentam os sonhos de todos os dias. Vai trabalhar sem gosto e indiferente sonhando com o dia em que vai ser rica, com casa e carro próprios, como se a vida aos trinta e dois anos ainda tivesse muitas voltas a dar sem que nenhum investimento tivesse sido feito ou pelo menos bem aproveitado.
Agora saiu para respirar um pouco de ar. Está satisfeita, drogada, alterada mas não se importa, já ninguém se importa. Todos desistiram de desperdiçar latim e dinheiro com alguém perdido, para sempre.
Não tarda muito voltará ao quarto, à cara de dor, à ressaca. E de novo recorrerá ao maço de notas e ao vendedor do local de sempre.
A esperança está morta há muito.

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