terça-feira, 12 de agosto de 2008
Não parava quieta num só sítio. Dividia a vida por categorias e a convivência era nula.
Rastejava o corpo entre os 3 empregos que era obrigada a ter. Preferia-lo a ir partilhar uma esquina com alguém.
Tinha de o fazer, por ela, só por ela. Porque se o fizesse pelos outros, sentia que não fazia coisa nenhuma.
Usufruía desta vida porque queria ou porque precisava mas sempre por ela.
Não lhe interessava o que tinha de fazer nem porquê, desde que fosse por ela própria.
E repetia-o todas as madrugadas antes de adormecer e todas as noites antes de se levantar.
As esfregonas não a intimidavam e os ecopontos pareciam sorrir-lhe sobre a lua já cansada de lhe iluminar o rosto gasto pela poluição da cidade e a sola dos sapatos farta da mesma calçada anos a fio.
Mas ela escrevia. Era ela própria quando o fazia todos os dias, quando a vontade de escrever ou o pensamento que lhe surgia passava para o papel.
E quando sentia que não podia, que não conseguia e cuja vida não lhe permitia, não era ela. E quando não tinha o tempo preciso para fazer aquilo que gostava, também não era ela.
Era apenas uma criatura com uns bons anos em cima que não se sentia ela.
Era ela apenas nas horas em que escrevia para o Jornal Local.
Deixava de o ser assim que o terminava. Deixava de o ser assim que saia de um mundo que era dela e passava a ficar no mundo que a obrigavam, que a vida a obrigava.
Deveria escrever horas a fio. Mas ela era só aquela a quem a vida não o permitia.
Era apenas uma emigrante que, como boa filha, à terra voltava assim que recebia o ordenado de empregada.
Será ela. Não hoje nem amanhã, mas voltará a sê-lo e não a visitar-se como escritora esporadicamente.
12:55