domingo, 17 de agosto de 2008
Saiu de casa, cabeça baixa, olhos postos no chão. Na mão direita levava as chaves. Olhou a sua casa cá de baixo, um bonito apartamento em plena Baixa Lisboeta. Desceu a rua e olhou o Rossio por inteiro, com um arrepio a correr-lhe dentro das costas da camisola. Já chegou o Verão mas naquele dia o Sol tinha decidido nascer menos brilhante. Na verdade, para ela todos os dias eram escuros.
O seu coração flutuava desde lá de cima. Uma saudade melancólica da companhia de alguém começa a consumi-la aos poucos, como a falta que se sente de uma pessoa que se sabe que se vai perder, mesmo ainda não a tendo perdido e ainda a tendo nos braços.
Acorda deste sentimentalismo solitário e triste com a mão dele a apertar a dela. Já quase se esquecera do rosto dele, não fosse um calor protector e invisível (aos olhos) ter-lhe aconchegado a mão. Olha para o lado e vê-o com o cabelo cor-de-cenoura e os olhos verdes, agora mais verdes que antes, quando a viu fugir a sete pés do café. Ela torna-se de repente a menina risonha de tempos passados, com as sardas quase a saltarem-lhe do rosto de felicidade. E ela riu como se não houvesse nada demasiado grave no mundo e como se nunca, ainda, lhe tivessem feito mal, nem receasse poderem vir a calar-lhe aquele riso.
“Freddie, até que enfim.” – emociona-se o rapaz ao olhá-la, não conseguindo evitar rir-se também. E foram, então, duas pessoas a pairar no meio da praça, que riam alheios aos olhares e aos cochichos. Quando a abraçou, as lágrimas foram de um amor gigante ao caírem-lhe dos olhos. E foi assim que ela deixou acalmar o riso, para descansar no ombro dele. Ele ainda não sabe quanto tempo passou, nem se foi sonho ou realidade, mas quando desfizeram aquele abraço, ele olhou-a e só viu um rosto cabisbaixo e triste. Mas, ao concentrar-se melhor, constatou que a mulher de vinte e três anos continuava a morar-lhe no fundo dos olhos.
“Sabes, durante os dias que se seguiram acreditei seres o único homem com perfume debaixo da pele. Conseguiste mesmo ficar-me na cabeça.”
“Freddie…”
“Dei por mim a parar, vezes sem conta, no meio da calçada, de olhos fechados a cheirar o ar, porque me parecia sentir esse teu cheiro a vir no vento.”
“Porque não voltas-te ao café? Tu prometes-te…”
“Não acredites numa mulher a quem a vida vira as costas e que tem a coração com cheiro a mofo e desbotado”
"Amo-te" - e calou-a com um beijo profundo e apaixonado.
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