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terça-feira, 19 de agosto de 2008


Todos os dias, sem excepções, chegava à estação curtos segundos antes das oito. A cobrir-lhe as pernas trazia sempre umas calças vermelhas bem justas às quais se sobrepunha um comprido top, também ele vermelho. Tinha decidido usar aquela cor desde que tinha virado as costas a “ele”. Tratava-o agora por “ele” para não ter de relembrar o seu nome.
Acendeu um cigarro e pediu ao segurança das bilheteiras que a acompanhasse até que aparecesse o comboio, e ele, obediente, não a deixou sozinha. Enquanto passeava a sua cor vermelha pelos azulejos já velhos da plataforma da estação, o seu cabelo encaracolado esvoaçava timidamente sobre os ombros, fazendo lembrar aqueles postais de saudade, enquanto o fumo do cigarro se desvanecia na cor do céu.
Passados oito minutos, os seus olhos pesados avistam o comboio na linha do horizonte imaginário. Ela agradece ao segurança de espera com uma última baforada e em modo de despedida aconchega-o com uma piscadela de olho. O comboio, quase vazio, ou não muito cheio, vai abrandando suavemente, esperando que ela se aproxime da sua carruagem. O lugar que ela tinha escolhido, inanimado do andar de baixo ainda vazio, à espera que ela o avive com a cor vermelha que transporta.
Não estranha o cheiro vazio que o comboio traz. Para aqueles lados nunca foi muita gente. Estava sentada num canto do comboio, embrulhada em pensamentos. Ouvia as pessoas lá fora a despedirem-se dos seus mais queridos com tanta força que a arrepiava. Encostou o seu nariz à janela e ali se deixou ficar, até que o calor da respiração embaciasse o vidro de tal forma que os seus olhos vissem apenas uma densa névoa, e os seus dedos não resistissem a rabiscar as coisas mais bizarras e irreais por toda a janela. Uma gaivota pousou na chaminé do prédio encostado à via, fixou os seus olhos nos seus movimentos. Quase não se movia, parece gostar dos raios do Sol. Além do cheiro a terra seca que a janela semi-aberta deixava entrar, sentia o cheiro “dele”, vindo não sabe bem de onde. Fechou os olhos para o conseguir sentir melhor. O Sol acalmou. Os seus olhos continuavam fixos na gaivota pousada na chaminé.
Por momentos assustou-se. À volta dela já não existia o comboio vazio. Existia agora uma casinha feita de pedacinhos de tecido. Esboçou um suspiro de alívio quando os viu. Ela e “ele, ou “ele” e ela, como ela quisesse. Era a casa deles, viviam num mundo feito por eles, “ele” imaginava e ela fazia. Utilizando os mais variados materiais para fazer qualquer coisa. E “ele” imaginava qualquer coisa a qualquer momento. Mesmo até quando dormia.
“Freddie, senhora Freddie.”
“Sim, sim diga” – acordou sobressaltada.
“Esta é a última paragem, vai ter de abandonar o comboio.”

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