sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Deu voltas e voltas, tentando entender como é que se foi meter novamente na mesma situação. Naquela sala, sozinha, na sua sala. As paredes da casa ainda estavam brancas, os caixotes misturavam-se e ela remexia neles à procura do seu último maço. Trouxera apenas com ela uma cadeira de baloiço, achava que ficava perfeita no centro da sala. Fumou que nem uma velha gasta e amargurada, contou os minutos pelo relógio da aparelhagem que os antigos donos da sua nova casa tinham deixado. Procurava silêncio, entre cada sopro de fumo. E ficou à espera de conseguir desculpar-se, de conseguir perdoar por se ter apaixonado tão estupidamente. Ela não era assim.
Os caixotes fitavam-na no meio da escuridão da casa, apenas com a luz do cigarro aceso e dos números da aparelhagem. Não lhe apetecia mover-se, afinal ainda não eram 04.28 da manhã. Não tinha a certeza dos disparates que pensava, nem tinha a certeza se estava sequer a pensar. Era um bocado difícil focar-se nos seus próximos passos quando parecia que estava em pausa e o resto do mundo avançava lá fora sem a ajuda dela. Pensava em tempos que ficaram dentro dela sem tempo definido, tempos que pareciam que só ela tinha conhecido. Freddie, que raio de nome para se ter. Queria cambalear até à Loja do Cidadão o mais rápido que se permitia a ela própria. Sim, esse era o primeiro objectivo, tinha conseguido.
Sentou-se na varanda com as pernas à chinês, o cigarro estava no fim. Pôs-se a pensar na vida. Vida, palavra tão irónica para ela. Já não era uma palavra, tinha-se tornado num nome. Um dia era o nome do meio dela, no outro já não. Mas queria-o para seu apelido, como se estivesse a empurrar o seu nome próprio para a frente. E assim ia ser, Freddie Vida.
Começou a ganhar sentido a si própria e falar sozinha tinha-se tornado um hábito. Levantou-se e foi para dentro, ia dormir no chão por cima do jornal que tinha conseguido encontrar entalado nos bancos do comboio para lá. Pôs-se a olhar para o tecto e a pensar em tudo o que o seu pai lhe tinha ensinado. Em como ele lhe tinha dito para ser sempre racional, acima de tudo e todos.
“Mas para quê? Para me vir a tornar numa maníaca que arruma as meias por cor e tamanho?” – deixou escapar no vácuo da sala ainda pintada de fresco.
“Devo ter feito muita merda numa vida passada… Isto se ao menos eu acreditasse em vidas passadas, ridículo.”
Deu com ela sozinha, a tentar falar com ela e consigo própria ao mesmo tempo. O seu discurso não era coerente.
Decidiu dormir, mesmo sabendo que ia ter mais uma noite em branco.
“Quem me dera, que tivesses ficado. Só até eu adormecer de vez.”
15:12