domingo, 24 de agosto de 2008
O seu cabelo encaracolava cada vez mais a cada dia que passava, as sardas que trazia no rosto multiplicavam-se e saltavam para perto dos olhos. Sentia-se cansada, não tinha a aparência de uma jovem. Trazia consigo o medo de encontrar rostos familiares, que pudessem trazer-lhe saudades de outras viagens. Sempre que tinha tempo, levantava a cabeça e reparava nos novos rostos da nova cidade, a maior parte já mal reconhecia, de tão desfiguradas que via as pessoas. Já não conhecia a forma humana.
“Passa-me a mochila, eu preciso de ir. Passa-ma, que este sítio já não tem mais nada para me oferecer. Não chores, peço-te. Vou à procura de alguma coisa que me encha o peito, para eu poder encher as folhas brancas que levo, tenta compreender, por favor.”
Mas fora desnecessário pedir aquela compreensão àquela que a viu crescer, e que agora sentia a dor da sua ausência.
“Minha querida… Por favor não deixes que a vida te vire as costas.” – gaguejou a avó já com o peso da idade.
Tinha-a criado desde que se lembrava da sua existência. No meio disto tudo, ao acordar, sentia a confusão das palavras da avó.
Virou a esquina e decidiu-se ficar pelo pequeno jardim ao fundo da rua. Sentou-se no banco já meio partido onde se costumava deixar ficar a recordar-se de cada história que a avó lhe tinha contado.
“Posso?” – aproximou-se um rapaz de meia-idade.
Não deu pela sua presença e focou-se na fonte que não parava de correr mesmo com todas as crianças que lhe atiravam pedras e pedregulhos. Acabou por lhe pedir lume e, assim que a lua subiu no céu, já lhe pedia também que lhe enrolasse os cigarros, enquanto afastava o cabelo encaracolado da frente dos olhos. Estava bêbeda. Sabia que não devia abusar do álcool que trazia sempre na mala.
“Querida Freddie, estás perdida…” – ouvia a avó a quilómetros de distância.
Arrastou-o pela gravata até casa. Depois de algumas tentativas de conseguir pôr a chave dentro da fechadura, lá entraram. Estava tão envolvida pelo momento que não ligou à falta de presença de móveis e ao vazio da casa. Descalçou-se e deixaram-se embalar pela luz da lua que entrava pela varanda aberta. Acabaram por adormecer no jornal, depois do momento de amor intenso, se é que se podia chamar de amor.
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