segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Deixou-se estar no seu lado do jornal. Lá fora o Sol já tinha subido bem alto.
O seu coração estava cheio demais, tanto que transbordava e ela molhava as folhas fazendo a tinta preta borrar página a página. Agora ele iria perceber que ela estava a chorar. Fechou os olhos e fez com que as lágrimas parassem de escorrer antes que ele se apercebesse.
“Freddie?”
"(merda)" – pensou - “Diz?”
“Vem mais para perto de mim, estás longe.”
Ela sabia que tinha de dar o braço a torcer, não o conhecia, tinha sido só uma noite. Mas ele tratava-a como alguém de longa data, não percebia que ela estava de ressaca e o quanto estava arrependida.
“Sabes Freddie, a teu lado os meus pés ficam menos gelados e o meu coração mais quente. Consegues amolecer-me.”
Mentiroso, era tudo o que ela pensava dele. O cubo de gelo naquela sala era ela, e estava derretida. Ele era apenas um glaciar cheio de falinhas mansas que ela não queria ouvir.
“Não mintas.”
“Não minto, não há nada melhor do que ver-te dormir. Tocar no teu pescoço e seguir a curva até ao teu ombro. Contigo é diferente, esqueço todas as mulheres do mundo.”
Ela sentia-se comprometida. Não passava de uma noite, ele tinha-se envolvido demais.
“Não me toques, por favor, não hoje.”
“Porquê? Não gostas-te?”
“Porque sim, tens de me deixar, tens de me deixar ir.”
“Eu gostei de ti mal te vi no parque, isso não chega?”
Ela gostava de lhe ter dito que chegava, que chegava para o poder ter por perto. Mas não era isso o que sentia.
“Não, não chega.”
“Mas Freddie… És especial, eu sinto-o.”
Ela e mais umas musas que passeavam na cidade, essas sim eram especiais como ela. Eram todas. Apetecia-lhe mandá-lo embora, sem piedade, e deixar-se ficar enrolada sobre ela própria e chorar, chorar, chorar. Havia de chorar até esvaziar o coração. E depois enrolava-se ao jornal e chorava mais um pouco. Depois disso não conseguia pensar no que mais fazer. Mas ele não valia o suficiente para ela ficar sem saber.
Ajudou-o a endireitar a gravata e a apanhar um táxi para sua casa.
“Até um dia” – disse-lhe ele com a língua meio enrolada. E sorriu.
E ela ficou-o a ver desaparecer rua abaixo, desejando que aparecesse alguma mulher capaz de o consolar, porque ela não o queria, não o desejava.
Ele não era o do café.
Ele não era o verdadeiro “ele”.
23:57