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quarta-feira, 27 de agosto de 2008


Não podia continuar ali, ela sabia. O lugar dela deixou de ser aquele. Pertencia à confusão da Baixa Lisboeta e tinha saudades do gelo, do café e do copo de gelo. Tinha saudades d’”ele”.
O táxi deixou-a na casa que partilhava com a avó desde a morte da sua mãe. Viu-o à porta de casa, à sua espera. Mal o carro parou, ele levantou-se e apressou-se a fugir em direcção ao táxi. Fez o mesmo sorriso de sempre, deu um beijo na bochecha dela e começou a desbobinar mil perguntas que tinha para lhe fazer.
“Freddie, porquê?”
“Sabias que voltava hoje?” – disse em jeito de escapatória da pergunta anterior. Desviou o olhar para a avó à janela do 3º andar, ela deixava escapar um sorriso maroto, e acabou por perceber tudo.
Ficou a ouvi-lo falar da rapariga a quem ficou preso e ela deixou-se enternecer pela forma como ele se lembrava de cada pormenor das vezes que estiveram juntos.
“Sabes Freddie, acho que desta vez acertei.”
Ela não sabia se haveria de acreditar no amor daquele rapaz, mas deixou-se iludir porque, afinal, era a tal ilusão que a fazia acalmar o estado de espírito. Olhou-o de alto a baixo, com atenção e via-o agora maior que ela. O rapaz do café tinha-se tornado, quase sem ela dar conta, uma personagem dos livros românticos que ela lia. Ele tinha o dom de falar, mas ela ignorou-o e enrolou mais um cigarro.
“Vamos a um bar, vamos conversar, vamos amor…”
Acenou com a cabeça em jeito de aprovação e subiu para entregar as malas à avó.
O ar estava mais fresco lá dentro, sem dúvida. Talvez fosse da máquina dos gelados que não parava de ser aberta, ou simplesmente o ar condicionado a trabalhar como deve ser. Ele bebeu do copo dela, sem contradições. Falou de tudo o que se passou no seu emprego, coisas que ela já tinha ouvido há meses atrás, mas acrescentava sempre algum pormenor esquecido, o que tornava para ela o discurso sempre mais aliciante. Ele tinha uma indiferença para o mundo exterior e ao mesmo tempo uma simpatia enorme para quem se aproximasse dele. Talvez fosse por isso que ela estava tão apaixonada.
Fixou-o e continuava sem perceber há quantas noites ele não dormia o suficiente ou se passava o dia inteiro deitado, à espera. Parecia-lhe que ele tinha passado a viver num estado de embriaguez que só lhe dava vontade de se embriagar a ela própria nele.
“As minhas noites estão sempre protegidas quando te tenho a meu lado, sei que se me der para fugir tu não irias ficar preso ao chão, a ver-me afastar.” – calou-o ela.
“Mas mesmo assim fugiste… eu implorei para que não o fizesses e desapareceste. Toquei à campainha e abriu-me a tua avó dizendo que tinhas partido sem destino, para uma casa vazia, algures. Fui ao aeroporto e não estava programado voares naquele dia. Na estação o segurança apenas me falou na rapariga de vermelho.”
Ajeitou o cachecol dele à saída do bar, sem soltar uma única palavra. Estava de Inverno mas, para ela, ele era sempre o seu aquecedor.
“Freddie, amanhã venho-te buscar bem cedo.”
“Está combinado, coração.”

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