sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Não trazia um caminho traçado, caminhava para o lugar.
Decidiu ir a pé, dava-lhe tempo para pensar no que já tinha sido pensado vezes de perder a conta.
Ao fim de alguns minutos o ar gelado das ruas fez acordá-la dos seus pensamentos distantes. Decidiu caminhar até àquele café na baixa, estava por perto.
As faces gélidas do frio e rugosas do tempo dos mendigos que por ali se passeavam foram gradualmente desaparecendo. Encontrou aconchego no café, estava quente. O calor, o ambiente, e principalmente, o calor das pessoas.
Estranhou, para uma tarde de Inverno não estava muito cheio.
Em vez de chamar pelo empregado, esperou que alguém desse pela sua presença.
Ao fim algum tempo, o empregado dirigiu-se a ela.
“Que senhora tão estranha”, pensou.
"Boa tarde. Que deseja?"
Ela levantou a cabeça, embora a tivesse mantido baixa, e fixou os seus olhos com a dureza de uma rocha na cara do rapaz.
"Um café e um copo com gelo, por favor."
Sem se manifestar, o empregado achou o pedido estranho, no meio do Inverno. Quem ali ia escolhia sempre entre cafés bem quentes, chás ou chocolate quente, para aquecer o corpo e a alma no Inverno. Mas aquela estranha mulher era o contrário de tudo...
Enquanto esperava, voltou a baixar a cabeça. Não gostava que reparassem em nela, que notassem a sua presença. Tinha cores escuras nas roupas que trazia, o ar pesado e neutro, tudo parecia uma fachada.
"Aqui tem.”, interrompeu o empregado.
Estas duas palavras fizeram a rapariga acordar do seu sonho.
"Obrigada. Olhe, desculpe. Eu sei que não deve ser possível, mas não pode conversar um bocado comigo?", perguntou ela.
"Pois, penso que será difícil. Está à espera de alguém?"
"Sim. Estou à espera de algo, ou alguém, não sei bem. Tem a certeza que não pode ficar um bocadinho? Sinto-me tão sozinha."
Aquele estranho pedido tocou com o empregado. Aquela estranha pedia-lhe companhia.
"Vou ver o que posso fazer.", rematou friamente.
Ele afastou-se e entrou pela porta de acesso condicionado.
Tinha-se afastado dela como tantas outras pessoas faziam.
"Tenho esperado toda a vida…", escapou por entre os lábios daquela mulher, baixando novamente a cabeça e esperando pelo seu regresso.
Não paravam de entrar pessoas pelo café dentro, o calor daquele sítio chamava as multidões que passeavam pela Baixa Lisboeta.
O empregado saiu pela porta de acesso condicionado, o que fez com que ela desviasse o olhar do chão para ele. Trazia o pedido na mão.
"Desculpe a indiscrição, mas está à espera de quem?", repetiu ele, com um ar um tanto preocupado. Não conseguia definir a expressão na cara dela e isso preocupava-o.
"Ainda não sei muito bem. Toda a vida as pessoas esperam por alguém.", respondeu ela com os olhos postos no exterior.
"Não acha isso um bocadinho vago e dramático?", perguntou curioso.
"Qual é o seu nome?", perguntou a mulher, em jeito de fugida à pergunta anterior.
"Pedro. E a senhora?"
"Menina. A menina chama-se Freddie."
"Freddie? Que nome estranho para uma rapariga."
"Pois é. Sou uma rapariga estranha, presa neste mundo estranho. O menos-mal é o nome."
O empregado sentia-se um pouco acanhado. Quem era ela? Não percebia o porquê do seu estado de espírito e tinha medo de perguntar. Depois de tanto tempo a trabalhar com pessoas já sabia dizer e distinguir as várias emoções que ali entravam... mas não aquela.
"Tenho de ir trabalhar… Mas fique a saber que foi um prazer conhecê-la.", disse ele.
"Não diga isso assim. Foi uma vez. Nunca mais me vai ver... se eu entrar novamente aqui é provável que nem me volte a reconhecer..." disse.
Parecia que o peso do mundo estava no seu olhar.
"Não diga isso... a menina é tão bonita..."
"Freddie. Só Freddie, nada mais".
O empregado não sabia o que fazer nem o que responder. Ela conseguia prendê-lo. Prendia o seu espírito dentro daquele olhar profundo e magoado, negro de tanta dor. Não queria partir, queria ficar, perceber e ajudar.
"Freddie…", disse a medo.
"Diz, Pedro.", disse com um sorriso vago daqueles que não se notam nos lábios mas nos olhos e no coração.
"Eu sei que sou apenas um empregado que a serviu uma vez… mas consigo ver nos seus olhos a dor e tristeza."
"Que disparate. Os meus olhos não dizem nada. Se os meus olhos mostrassem a minha dor, estaria cega. A dor cega-me, prende-me também os movimentos e ninguém pode ver isso.", a sua expressão alterava-se a cada segundo.
"Desculpa... Posso tratar-te por “tu”, não?", disse Pedro baixando a cabeça.
"Desculpa-me tu. E sim podes. Mas não tens culpa nenhuma. A culpa é deste mundo."
"Freddie…"
"Sim?"
"Eu tenho que ir... Prometes que ficas bem?"
A sua preocupação crescia e ele afogava-se cada vez mais nela.
"Não posso. Passo cá amanhã.”
Pagou e saiu.
A sua promessa ficou perdida no ar. Uma como tantas outras.
Mas ele esperou-a.
Todo o dia, todos os dias.
Todos os dias até ao resto da sua vida.
Ele esperou-a naquela mesa, daquele café.
Um café e um copo de gelo, era o que pedia.
22:41