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sábado, 20 de setembro de 2008


O som do chiar dos pneus ecoa pela cidade. Passa por todas as esquinas mais próximas e faz os pombos repousados sobre os parapeitos das janelas, já sem cor, levantarem voo sem direcção, assustados.A pancada foi seca e impiedosa. A mala com o estampado florido que ela tanto gostava voou, talvez um mendigo que ia a passar a tenha agarrado. Um dos sapatos comprados junto ao rio também ganhou asas e só parou no passeio. Agora, deitada sobre o alcatrão, fita as pedras da calçada. Os olhos não mexem, está inconsciente. Depressa as pessoas se aproximam daquele corpo, já sem alma.
“Pobre menina, tão nova.” – ouve-se as velhinhas comentarem.
“Depressa, alguém ligue para o 112.” – pede aflito um pintor que faz das ruas Lisboetas o seu local de trabalho.
Ela está a ouvi-los. Mas não se consegue mexer, está imóvel. As pernas não lhe obedecem, os braços permanecem sossegados, o corpo está machucado. A alma partiu.


“Ela não precisava de mais. Como ela costumava dizer, as pessoas dizem tanta coisa que não significa nada que nem se apercebem que não significam rigorosamente nada. Por isso não me vou por aqui a falar com rodeios. Ela está aqui, e vai continuar aqui. Vai continuar aqui comigo mesmo que não esteja mesmo aqui. Não preciso pensar em mais nada sem ser isto, e eu não o diria se não fosse verdade. E naquela tarde, ela ficou-se pelo caminho, não chegou a casa para se sentar ao meu lado e das nossas filhas.”
“Bem dito Pedro. A Freddie, esteja ela onde estiver, deve estar tão orgulhosa de ti”
“Esquece isso mãe. Arranjaste as flores vermelhas para a coroa?”
“Como me pediste.”
“Traz-me um café por favor. E um copo de gelo.”

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